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“Os que crêem que o dinheiro tudo consegue são propensos a fazer tudo por ele.”
por Voltaire

Entrevistas

08/01/10

Ziraldo Alves Pinto

Ziraldo, o pai do Menino Maluquinho

Ziraldo, o pai do Menino Maluquinho

Por Maiby Gignon
Foto: Frazão

O escritor e cartunista Ziraldo esteve na Espanha para receber o “VI Premio Quevedos” de humor gráfico, segundo ele, o mais importante de sua carreira. Aos 77 anos, Ziraldo é um dos autores infantis que mais vendeu livros no Brasil, porém o filho de Dona Zizinha e Geraldo demorou em descobrir esse talento. Ziraldo era especialista em charges políticas e, junto a Millôr e Jaguar, lançou o Pasquim, o jornal não-conformista mais conhecido na época ditatorial brasileira. Durante entrevista exclusiva para a brazilcomZ, o criador de “O Menino Maluquinho” falou sobre o prêmio recebido pela Universidade de Alcalá, sobre seu programa de televisão, a educação no Brasil e muito mais. Ziraldo é pai de três filhos, tem seis netos e afirma que o que mais faz na vida é trabalhar. E nós, leitores, agradecemos!  

Você já tem mais de 60 anos de trajetória e afirmou que o “VI Premio Iberoamericano de Humor Gráfico Quevedos” foi a coisa mais importante que aconteceu em sua vida. Por quê?
Profissionalmente sim. Qualquer profissional quer receber esse prêmio. O Centro de Alcalá é a única Universidade do mundo que cuida do desenho gráfico e que reconhece que esses profissionais merecem ser premiados pelo seu trabalho. E quando isso acontece, você se sente gratificado, recompensado. Todo mundo trabalha para ser reconhecido. Não é para ser conhecido, mas para ser reconhecido. E quando existe uma instituição que confirma isso e as pessoas que trabalham no mesmo segmento te aplaudem, é emocionante. A premiação foi muito emocionante.

Durante a Ditadura Militar você fundou, junto a outros humoristas, “O Pasquim”, um jornal não-conformista que serviu de escola a muita gente. Como foi esse período?
O fundador do Pasquim é o Jaguar. Eu e o Millôr entramos logo. Estávamos atrás de um espaço para nos expressarmos. Os jornais estavam em cima do muro e não tínhamos segurança do que se podia dizer. Estávamos loucos para fazer nossa própria publicação. Tentamos o Pif Paf e várias comunicações que não “pegaram”. E criamos o Pasquim, que foi a publicação de protesto mais importante da história da imprensa brasileira. Nunca houve vontade de parar, mas houve bomba na redação e várias apreensões. Botavam fogo na banca que vendia nosso jornal. Tivemos todo tipo de ameaça. Morríamos de medo, mas não parávamos, não. Éramos um bando de irresponsáveis (risos). Qualquer cartunista com menos de cinquenta anos, hoje, é cartunista por causa do Pasquim. Porque quando iniciamos, o humor gráfico na imprensa brasileira era muito fraco. Só tinha a Revista Cruzeiro, não tinha mais charge política. O Pasquim mudou a história da imprensa brasileira.

O seu primeiro livro infantil publicado foi “Flicts”. Pode contar-nos um pouco sobre ele e sobre o interesse em começar a escrever para crianças?
Estava fazendo o Pasquim, publicando minhas charges no Jornal do Brasil, quando os astronautas foram ao Brasil e eu tive a ideia de fazer o livro Flicts, em 69. O livro teve um sucesso muito grande, acima das minhas expectativas, e eu fiquei sem saber o que fazia da minha vida. Fui a Frankfurt, vendi o livro para Dinamarca, Inglaterra, Itália. E me perguntava: “Volto ao Brasil para fazer o Pasquim ou fico por aqui mesmo?” Decidi voltar e continuar com o Pasquim. Fiquei dez anos sem fazer livro para criança. Durante toda a década de 70, o Flicts continuou saindo, inclusive, em todos esses países que citei. Em 80, os militares começaram a prometer anistia e o Pasquim entrou nessa luta. Foi ai que publiquei o Menino Maluquinho. A ditadura acabou, o Menino Maluquinho fez um sucesso danado, parei com as charges no JB e fui fazer livro para criança. Acabei me tornando um dos autores infantis que mais vendem livro no Brasil. Só o Menino Maluquinho já vendeu mais de dois milhões de livros.

Entre os seus personagens mais famosos podemos destacar: Jeremias, Pererê, Mineirinho e, claro, o Menino Maluquinho. Todos eles, de alguma maneira, abordam temas da atualidade e, até mesmo, críticas. Como é que você consegue balancear e criar personagens que são interessantes tanto para crianças, como para adultos?
Não tem explicação, é que eu sou danado (risos). Mas esse negócio de dizer que homem tem lado criança, não pode ser. Homem que diz que tem um lado criança é débil mental. Ou você é adulto ou não é. O que você pode fazer é não esquecer a criança que você foi, mas nada justifica ter reações infantis, que você seja romântico como uma criança. Adulto é adulto. Eu acho que sei ler olho de criança. Menino não me engana, como eu enganava meu avô quando era criança. Porque sei os truques, lembro os que eu usava. O olho de fingimento, de culpado. Então isso ajuda muito na literatura que faço para criança. Eu não trato um menino no diminutivo, eu trato de igual para igual. Isso não é meu lado infantil.

Em seu site, você diz que o Menino Maluquinho mudou tudo para você, e que foi a partir dele que nasceram todos os seus livros. O que foi que esse Menino Maluquinho te trouxe de tão especial?
Foi o êxito dele. Uma coisa impressionante. Eu comecei a viajar pelo Brasil para ir falar de colégio em colégio, já que ele foi adotado por muitos deles.

Você também disse que foi graças a ele e à Professora Muito Maluquinha que redescobriu o Brasil.
Em todo lugar que eu ia, contava histórias dessa professora que não mandava fazer dever de casa. E à medida que eu contava a história, ia inventando mais coisas. Então começaram a pedir que eu escrevesse um livro sobre ela. Resolvi escrever e fez muito sucesso na América do Sul. Na Guatemala, o livro foi adotado pelo Ministério da Educação e todas as professoras receberam um exemplar.

E o que você mais gostou de redescobrir em nosso País?
Eu não gostei, não. Descobri que ninguém sabe ler, nem a professora. E é muito difícil fazer as crianças lerem se a própria professora não lê. 80% dos professores brasileiros nunca leram um livro. Temos que botar o pessoal para ler. Temos que estimular a leitura porque ninguém pode chegar à internet sem passar pelo livro. Livro é mais importante do que tudo.

E já que estamos falando do mundo online, além do site, você tem um Blog. O que você acha dessa facilidade e rapidez do mundo virtual?
O blog é para discutir essas coisas. É impressionante como você não dissemina num grupo uma ideia que você coloca num blog. Outro dia meu blog teve quarenta mil visitas em um dia. Mas se você sai na rua e pergunta se alguém leu seu blog, você não encontra. Um leu aqui, outro leu lá em Pirapora. Não junta um com o outro. Eu fazia um desenho no Jornal do Brasil e saiam 150 mil exemplares. Então, 150 mil pessoas viam meu desenho no mesmo lugar, um comentava com o outro. Tenho quarenta mil no blog, mas não repercute. É como uma gota de óleo, se você pinga no algodão, vai se espalhando por todo o algodão. Agora, se você pinga no chão, fica ali. E a internet é a gota no chão. A palavra gravada é que é importante. Na internet são palavras ao vento, não tem como autenticar, assinar pelo que está falando. Ainda vai demorar muito para a internet assumir a importância da palavra impressa.

E agora você está com um programa na TV Brasil. Conte-nos um pouco sobre o ABZ do Ziraldo.
É um programa para falar de livros. Porque o Brasil precisa se transformar em um país de leitores. Não tem menino prodígio, como no Raul Gil. Que menino prodígio você viu virar um grande adulto? Acabam sofrendo, se metem em drogas. O único que eu conheço é o meu Menino Maluquinho, porque eu consegui não deixar ele se meter nisso, foi fazer vestibular, cuidar da vida ele. Um menino que é ator não vai ser um adulto ator. Menino que é ator, é desinibido. Ele não sabe técnicas de atuação, ele faz por intuição, mas pode crescer e ser um ator de merda. A única criança prodígio que apareceu no cinema americano e que seguiu com isso foi a Elizabeth Taylor. Criança é criança e não tem que viver mundo de adulto. Por isso que no meu programa tem só um coral, porque ai todas as crianças são iguais, cantam músicas bonitas, de qualidade, como Chico Buarque, Jorge Bem, Gil. Eu entrevisto um escritor ou um professor, pessoas ligadas à leitura, que conversam com os pais que estão assistindo. E no final tem uma atração, um palhaço ou um mímico, um talento qualquer que não tem muito espaço na televisão. Aparece cada gênio lá. O programa é isso e está indo muito bem.

Você costuma viajar muito pelo Brasil e afirmou que ainda vê muita criança analfabeta, cursando a quarta série do ensino fundamental…
É todo mundo analfabeto no Brasil. Alfabetizar não é aprender a escrever o nome e ler placa de rua. Alfabetizado é o cara que lê, entende o que está lendo e é capaz de se expressar através da escrita.

Por isso você costuma dizer que ler é mais importante do que estudar?
Isso eu falo o tempo todo para colocar na cabeça dos pais que deixem o filho ler, porque é muito mais importante do que ficar estudando. Se a criança lê e gosta de ler, gasta menos tempo estudando. Quem lê com desenvoltura, lê o texto uma vez só e entende. Ai vai brincar. É importante ler em casa, junto com o filho.

E você ainda é pintor, cartazista, jornalista, teatrólogo, chargista, caricaturista, escritor e colecionador de piadas. Como é que arruma tempo para tanta coisa? Teve que deixar algumas delas de lado?
Eu não faço nada na vida a não ser trabalhar. De vez em quando saio para viajar. Não deixo nada de lado. Sou como Mário de Andrade, eu sou 300.

Escrever ou desenhar?
Hoje eu gosto mais de escrever do que desenhar. É desafiante. Escrever é muito mais difícil. Eu sempre gostei de mostrar para umas duas pessoas porque acho que meu texto nunca está bem escrito.

Você está completando 77 anos. Por um acaso pensa em se aposentar?
Não. A aposentadoria é a morte do ser humano.

“As letras que falam” é o seu projeto mais recente? Já está finalizado?
É uma brincadeira que estou fazendo. Um livro com mil cartuns, só que com letras. Os leitores do meu blog estão mandando as ideias. O livro vai ter muitos autores, vou colocar as idéias de todo mundo. O mais recente é a serie de dez livros que já tem o Menino do Planeta Urano, o da Lua, o de Mercúrio. Faltam sete, ou seja, sete anos para eu me aposentar.
 
Rápidas:

Ziraldo? Eu sou filho da Zizinha e do Geraldo.

Língua Portuguesa? Por falar em língua portuguesa, estou indo para o Timor Leste, que é um país de língua portuguesa, lá na Indonésia. Vou lá fazer algumas palestras.

Maurício de Souza? Adoro ele. Um profissional de grande sucesso que sabe cuidar muito bem do seu trabalho. Nosso trabalho é completamente diferente. Ele não colocou a causa na frente do trabalho.

1 Comentário

  1. 27 de agosto de 2010 at 22:15 | Permalink

    Olá, boa tarde!
    Estou tentando contato com o Ziraldo para convidá-lo para dar uma palestra aos alunos da Instituição onde trabalho. Vocês teriam o e-mail dele?
    Muito obrigada! Sheila

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